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Educação Ambiental para crianças segundo uma perspectiva Marxiana

Educação Ambiental para crianças segundo uma perspectiva Marxiana

Photo by Min An - Pexels

A paixão é a força humana essencial que caminha energicamente em direção ao objeto. (Marx, 2004, p. 127-128)

Através deste artigo, buscamos apresentar um linha de pensamento voltada à educação ambiental em escolas de educação infantil a partir da experiência de vida do autor, que é filho de dois professores, e que foram empresários do ramo educacional e proprietários de uma instituição de ensino infantil chamada Escola Roseronner, na cidade de Iúna no estado do Espírito Santo nos anos 1980 e 90.

Também foi nessa escola onde o autor teve suas primeiras experiências com reciclagem de materiais e onde pôde exercer a prática de alguns preceitos que, segundo o filósofo Karl Marx, regem a Educação Ambiental:

“pensar em mudar comportamentos, atitudes, aspectos culturais e formas de organização, significa pensar em transformar o conjunto das relações sociais nas quais estamos inseridos, as quais constituímos e pelas quais somos constituídos, o que exige, dentre outros, ação política coletiva, intervindo na esfera pública, e conhecimento das dinâmicas social e ecológica.” (MARX, 2006, p. 92-94).

Optou-se pela abordagem na linha da educação ambiental para crianças, pois foi aos 7 anos de idade que o autor começou sua vida de aventuras pela região do Caparaó, localizada na região de montanhas entre os estados do Espírito Santo e Minas Gerais. Hoje, aos 38 anos, o autor acumula mais de três décadas de idas e vindas aos altiplanos desse paraíso chamado Caparaó.

A região abriga ainda, o Parque Nacional do Caparaó, uma unidade de conservação (UC) com 60 anos de histórias, de educação ambiental e práticas sustentáveis de preservação dos recursos naturais.

A região do Caparaó é um local que merece todo o cuidado no sentido da preservação para as próximas gerações e, portanto, se faz pertinente uma visão de uso sustentável dos recursos naturais da região, e não somente na área da UC.

A educação praticada à época em questão dentro da Escola Roseronner, anos 1980 e 90, firmou posição em defesa da emancipação humana, associada à inquietação e disciplina intelectual apregoadas por Marx.

As práticas transformadoras promovidas pelos educadores da Escola Roseronner marcaram a vida de dezenas de crianças que hoje vêem-se médicos, engenheiros, comerciantes, empresários e, muitos, recordam com paixão os tempos da Escola pioneira no ensino de excelência.

Uma das preocupações de Marx era pensar as relações entre os seres humanos e entre esses e a natureza (MARX, 1963), e as práticas transformadoras da Escola Roseronner sempre buscaram, através de uma transdisciplinaridade, a ruptura de padrões da sociedade capitalista consolidada e em constante expansão.

Educadores como Paulo Freire vão dizer que a educação não resolve tudo, mas sem esta não há possibilidade de mudança. O educador precisa atuar politicamente, exercer sua cidadania, conhecer e ter compromisso social para que se eduque, ou seja, se aprimore em sua condição humana produzindo cultura e meios para agir no mundo (LOUREIRO, 2006).

E os educadores da Escola Roseronner sempre atuaram de forma crítica e multidisciplinar, com o intuito de não apenas educar, mas, segundo GARRIDO (2012), de formar cidadãos cientes da sua função social no sentido de gerar um modo de vida sustentável, repensando o meio ambiente, as ações do homem e o seu habitat.

O autor deste texto é testemunha e sujeito daquele trabalho pioneiro.

Para Marx, a natureza é uma unidade complexa e dinâmica, auto-organizada em seu próprio movimento contraditório. E deve ser ecologicamente viável dentro das reflexões e práticas do Educador Ambiental (LOUREIRO, 2006).

A existência consciente e autêntica do homem, afirma Marx, é a atividade social e a satisfação social.

No entanto, para se alcançar um modo de vida sustentável e satisfazer suas necessidades básicas, o capitalismo levou o homem à busca pela propriedade, que precisa ser trocada para satisfazer tais necessidades.

Isso é o que Marx chamou de teoria do valor do trabalho. É um valor de troca que aumenta o valor real, daí nasce o sentido de comércio e capital (LOUREIRO, 2006).

“É evidente que o ser humano, por sua atividade, modifica de modo que lhe é útil a forma dos elementos naturais. Modifica, por exemplo, a forma da madeira, quando dela se faz uma mesa. Não obstante, a mesa ainda é madeira, coisa prosaica, material. Mas, logo que se revela mercadoria, transforma-se em algo ao mesmo tempo perceptível e impalpável.” (MARX, 2006, p. 92-94).

Em sua leitura de mundo, Marx entendia que as relações capitalistas escravizavam o ser humano e o separavam da natureza (GARRIDO, 2012).

Sob o capitalismo, cada vez mais e mais pessoas acreditam e confiam no “trabalho” para viver. Antes acreditava-se em parte na própria natureza por suas “necessidades naturais”. Na sociedade moderna, se você quer comer, precisa trabalhar, ou seja, é somente através do dinheiro que se pode sobreviver (LOUREIRO, 2006).

O sistema capitalista conferiu à natureza um valor de uso e, com isso, estimulou a exploração da natureza para que o ser humano produzisse mais trabalho e produtos. Essa relação tornava o ser humano estranho a si mesmo e, consequentemente, estranho também à natureza (MARX, 2008). Dicotomia homem x natureza.

Marx afirma que esse modo de produção e reprodução na vida da sociedade contribuiu para a ruptura da relação homem-natureza (LOUREIRO, 2006b). Segundo Foster (2010), o sistema capitalista fez surgir um novo tipo de relação do ser humano com a natureza.

Portanto, quanto mais cedo a criança vivencia experiências que estimulem o respeito, a harmonia e o amor pelo meio ambiente, melhores adultos estarão sendo formados, capazes de transformar e modificar o mundo em que estão inseridos.

E reforço a importância dessa educação transformadora, crítica, na formação de cidadão consciente do autor do presente trabalho que, em dias atuais, milita na área do turismo e preservação ambiental através de empresa própria, além de buscar a especialização pertinente junto ao Instituto Federal do Espírito Santo (IFES), no curso de pós-graduação em Educação Ambiental e Sustentabilidade.

A Educação Ambiental surgiu como uma resposta para uma sociedade que não é ambiental. Prova de que nossa sociedade não é ambiental é a crise em que ela se encontra atualmente. Como fruto de uma sociedade não ambiental, a educação também não é ambiental (BRÜGGER, 2004).

A transformação de uma educação não ambiental em Educação Ambiental não é algo que pode ser feito sem que seja trabalhado com profundidade alguns valores que são intrínsecos à Educação Ambiental.

De acordo com a Lei nº 9795/1999, em seu artigo 1º:

Entendem-se por Educação Ambiental os processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente, bem de uso comum do povo, essencial à sadia qualidade de vida e sua sustentabilidade. (BRASIL, 1999)

A Educação Ambiental transformadora e emancipatória é aquela que instrumentaliza o sujeito a exercer sua cidadania em busca de uma sociedade mais justa e igualitária (GARRIDO, 2012).

De acordo com Karl Marx (1978), o ser humano é um produto da realidade social na qual se encontra e, portanto, da própria educação que emerge da mesma. Porém, dialeticamente, o ser humano é também criador dessa realidade e dessa educação, portanto, agente ativo do processo, sujeito de sua própria educação e não objeto dela. Logo, a educação é, ao mesmo tempo, reflexo e, também, produtora/reprodutora da ordem social vigente.

Na oportunidade de criação de sua própria empresa, o autor do presente trabalho teve o cuidado de inserir nas atividades empresariais da mesma a promoção de vendas de artesanatos e produtos fabricados na cidade de Iúna/ES e que são de produção caseira e artesanal.

Atualmente, além do serviço de reservas de quartos e guia de turismo, o autor e proprietário de empresa privada na cidade de Iúna/ES, busca promover a venda de artigos da roça (farinha, gordura, melado, aguardente, etc.) gerando emprego e renda em toda uma cadeia de produtores.

É importante salientar que os produtos são embalados em vasilhames reciclados no comércio local, como garrafas, potes plásticos, etc.

Além disso, na sede da empresa são utilizados materiais como pneus velhos para confecção de vasos de plantas e camas para pet. O material é recolhido na cidade e o beneficiamento é realizado por uma artesã parceira da empresa.

Estas e outras iniciativas não têm, senão, fundamentos na educação transformadora promovida pela Escola Roseronner.

A Educação Ambiental transformadora aparece constantemente como sinônimo de outros nomes, tais como: crítica, emancipatória e dialógica (LOUREIRO, 2007).

A Educação Ambiental Crítica baseia-se em ideais democráticos e emancipatórios e contribui para a formação de sujeitos sociais emancipados, autores de sua própria história (CARVALHO, 2004).

É neste sentido que o autor do presente trabalho promove a gestão de sua empresa e visa levar adiante sua experiência e conhecimentos adquiridos no curso de pós-graduação para escolas de ensino infantil na cidade de Iúna/ES.

A escola deve ser um espaço de experiências vivenciais que levem o educando à reflexão crítica e à ação (GUIMARÃES, 2007; CARVALHO, 2007).

Vimos ao longo deste trabalho que a educação crítica e transformadora promovida pela Escola Roseronner na cidade de Iúna/ES nos anos 1980 e 90 deram os fundamentos necessários ao autor para as práticas de educação ambiental e sustentabilidade que hoje exerce em sua atividade empresarial.

Bem como a consciência de sua importância enquanto agente gerador de renda através das parcerias com artesãos e outros empresários do comércio local na cidade de Iúna/ES.

Além disso, fica claro que as séries iniciais do Ensino Fundamental são terreno fértil para um ensino que estimule o respeito, a harmonia e o amor pelo meio ambiente, no sentido de formar adultos conscientes de seu papel enquanto cidadãos capazes de transformar o mundo em que vivem.

“O homem vive da natureza: a natureza é o seu corpo com o qual ele deve manter uma conexão constante para não morrer.” (MARX, 1963).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

GARRIDO, LUCIANA DOS SANTOS; A Percepção De Meio Ambiente Por Alunos Do Ensino Fundamental Com Referência Na Educação Ambiental Crítica, Rio de Janeiro, Fiocruz, 2012;

GRZEBIELUKA, Douglas, KUBIAK, Izete, SCHILLER, Adriane Monteiro; Educação Ambiental: A Importância Deste Debate na Educação Infantil;

ONU, MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO; Pensar o Ambiente: bases filosóficas para a Educação Ambiental;

Manuscritos Econômicos e Filosóficos de 1844 – Wikipédia, a enciclopédia livre (wikipedia.org)

CAMACHO, RODRIGO SIMÃO; DE ARAÚJO, ALEXANDRE FALCÃO; EDUCAÇÃO AMBIENTAL EM FOCO, 2ª Edição, TUPÃ - SP, 2016, Na Trilha Da Educação Ambiental Emancipatória: Pegadas Conceituais E Clareiras Experienciais;

Ulisses Mochileiro