Era uma segunda-feira, primeiro dia de férias no trabalho, e eu tinha decidido que começaria em grande estilo subindo o Pico da Bandeira, no Parque Nacional do Caparaó, sozinho.

Acordei por volta das 5:30 da manhã em Iúna/ES na Casa do Mochileiro, Bebi um Caparaó (Café Especial) e fui de carro até a portaria Capixaba do Parque Nacional, localizada no município de Dores do Rio Preto.

Fiz o registro de entrada por volta das 8h e fui até o acampamento base (a Casa Queimada), onde estacionei o carro, me preparei e comecei a caminhada até o topo às 9:20 em ponto.

Na mochila eu levava água, frutas, barras de chocolate e biscoitos suficientes pra passar um dia no mato. Também levei uma blusa, uma camiseta, e um par de meias reservas, gorro e cachecol. Na trilha usei tênis de caminhada, camiseta e calças jeans, óculos escuros e boné devido ao sol já alto.

Muitos mochileiros optam pelo trajeto noturno pra ver o sol nascer lá em cima, que é realmente inesquecível, mas por se tratar de uma caminhada "solo", achei prudente subir de dia. E pra minha sorte aquela foi uma segunda-feira ensolarada.

A trilha capixaba tem cerca de 4,5km do acampamento base até o topo, e o destaque vai para o visual que se tem em quase toda a caminhada. Dá pra olhar pra Minas Gerais e basta virar o pescoço para ver o Espírito Santo.

A vista é incrível dos dois lados!A primeira etapa é concluída na chamada "pedra duas irmãs" a 2600m de altitude, onde já se vislumbra um visual dos estados vizinhos.

Meu primeiro dia de férias segue ensolarado e estou determinado a chegar ao topo do terceiro ponto mais alto do país caminhando sozinho morro acima.

Eu já havia subido o Pico do Bandeira algumas vezes, mas nunca sozinho, e minha primeira vez foi por volta dos 7 anos junto com meu pai, Roner Braga Padilha (alguns de vocês já devem ter ouvido falar nele). Ele sim era 'o Mochileiro', e foi quem me ensinou tudo que sei sobre turismo e respeito a natureza.

Encarar o Pico da Bandeira (2.890m), a Montanha Sagrada do Brasil sozinho é um desafio pra poucos!

Seguindo a caminhada, cheguei ao entroncamento das trilhas oficiais. É neste ponto que a trilha Mineira que vem do Terreirão encontra a trilha Capixaba que vem da Casa Queimada. Estamos quase no topo e já avisto o cume da montanha. Os metros finais podem parecer mais difíceis do que realmente são pois o cansaço da caminhada já me alcança, mas sigo determinado.

Alcanço o Pico da Bandeira (2.892m) ao meio-dia, e estou sozinho. Isolado do mundo.

Minha primeira experiência no topo do sudeste e no terceiro ponto mais alto do país completamente sozinho.

A sensação é de Vitória, de respeito e de absoluta contemplação.

Ainda me recuperando do cansaço, retiro a camiseta molhada (o suor lá em cima não evapora, congela!).

Depois de trocar de roupa, deito na pedra pra tomar um sol e tentar me manter aquecido. Apesar do dia ensolarado, venta muito e o frio me faz pensar em descer.

Se eu tive medo? Claro que sim. Mas meu respeito pela montanha era maior, e a retribuição veio em forma de uma paz que eu nunca havia sentido na vida.

Fiquei no topo do Pico da Bandeira por mais de 1 hora, e toda vez que conto essa história a primeira coisa que me vem a cabeça é aquele silêncio, ou melhor, a ausência de som!

Na cidade você está no silêncio na sua casa, mas ainda ouve a TV da casa do vizinho, ou um carro passando na rua. Mas nesse dia, eu não ouvia nada, nem o ar soprando. Foi realmente marcante!

Eu já vivi outras experiências lá em cima depois dessa, mas nenhuma foi tão transformadora quanto aquela segunda-feira.

Lá do alto a gente não consegue distinguir muita coisa, cidades, estados, nada disso tem importância. Os problemas não são tão complexos e a vida parece mais simples.

Abro um sorriso, e antes de começar o caminho de volta até a civilização, penso que seria legal se tivéssemos alí um marco onde todas as diferenças pudessem deixar de existir sob uma única bandeira, a Bandeira do Caparaó.